sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sorria: sua aula está sendo filmada

Pesquisadores gravam as aulas e põem os professores para estudar a própria didática


Por que lá pelos 14 anos os alunos começam a se desinteressar pelas ciências exatas? Uma equipe da Universidade Técnica de Munique (TUM), na Alemanha, e da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, observou como professores e alunos interagem com turmas do 8º e 9º ano de escolas secundárias alemãs. (Os alunos dessas turmas têm entre 13 e 15 anos.) Segundo Tina Seidel, da TUM, a maioria dos professores tem um estilo rígido, costuma fazer apenas perguntas fechadas (que só podem ser respondidas com “sim” ou “não” ou com alguma informação bem específica) e raramente incentiva os alunos a discutir um assunto ou conversa com eles sobre desempenho.
Em geral, professores trabalham sob bastante pressão (embora o leigo não saiba disso); para eles, é difícil perceber problemas no próprio comportamento, e corrigi-los. Por isso a equipe de cientistas criou um treinamento diferente do convencional. Usando câmeras de vídeo, gravou os professores enquanto davam aulas, e depois os ajudaram a analisar os vídeos e a estudar um jeito de se relacionar melhor com a classe (como um todo) e com alunos específicos. Além disso, puseram esses professores para dar aulas uns para os outros sobre o jogo Banco Imobiliário e sobre o sistema de transporte público da Alemanha; os professores se revezavam no papel de professor, de aluno motivado e de aluno desmotivado, e tais aulas de mentira também foram filmadas. Para ter com o que comparar, a equipe deu treinamento convencional para outro grupo de professores (isto é, esse grupo de controle participou de cursos de aperfeiçoamento comuns e não foi gravado em vídeo). Por fim, a equipe entrevistou os alunos no começo e no fim de cada curso; também pediu que respondessem a um breve questionário ao término de cada aula.
Resultado: a maioria dos alunos de professores treinados da forma convencional perdeu o interesse na matéria e se sentiu desmotivada, como é comum nessa idade. Contudo, a maioria dos alunos de professores gravados em vídeo se interessou mais pelas aulas, e se esforçou mais. “Um dos motivos principais para o sucesso desse novo treinamento”, diz Tina, “foi que os professores treinaram o estilo de dar aulas uns com os outros durante um longo período, para depois aplicar o que aprenderam às aulas de verdade. Isso foi bem mais eficiente do que participar de seminários regulares, do tipo um dia a cada dois meses. Os professores se esquecem muito depressa do conteúdo de seminários assim.”
A escola de educação da TUM já mudou o próprio curso de treinamento de professores; agora, os professores em treinamento dão aulas uns para os outros, enquanto as aulas são gravadas, e depois analisam os vídeos. (Como a TUM é muito respeitada na Europa, outras escolas de educação europeias devem seguir seu exemplo.) Qual é a questão aqui? Uma aula é algo complexo demais, durante a qual professores e alunos tomam centenas de decisões, muitas das quais inconscientes; o vídeo permite ao professor esticar o tempo, de modo que consegue identificar as decisões que tomou e pode pensar mais demoradamente a respeito de cada decisão.
Fonte: Revista Cálculo

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